29.6.17

Reflexos da arquitetura eclética na cidade de Tiradentes



Autor: Olinto Rodrigues dos Santos Filho
Embora grande parte ou a maioria esmagadora das construções do núcleo histórico de Tiradentes date do século XVIII e XIX, algumas casas setecentistas ou oitocentistas passaram por reformas superficiais ou uma espécie de “maquilagem” para dar um ar mais atualizado as velhas construções. Em sua maioria acrescentou-se uma nova cimalha, sobrevergas alteadas, detalhes de “vistas” das ombreiras e vergas de janelas e portas em argamassa.
Na rua da Câmara podemos citar primeiramente a casa de José Batista de Carvalho - “Sô Zequinha” – que teve a reconstrução de uma cimalha perfilada de gosto eclético (n° 03), a casa de Regina Conceição (n° 16) que teve a altura da fachada aumentada, introdução de faixa decorativa acima das sobrevergas,  porta foi deslocada para a lateral e as quatro janelas da frente tiveram os aros substituídos por modelo mais verticalizado e com sobrevergas alteradas, com detalhe de argamassa. Possivelmente foi aumentado um vão. Hoje o telhado e fachada foram novamente rebaixados.
 


Ainda na mesma rua, (número 08), o caso mais radical é da casa de Joaquinzinho Ramalho, em que todos os aros de portas e janelas foram retirados e introduzidos guarnições internas, sendo a frente preenchidas com “vistas” de massa apresentando detalhes ecléticos. As folhas das portas e janelas foram substituídas por portas do tipo calha usual no século XIX e início do XX. Foi ainda introduzida uma cimalha perfilada, muito detalhada assim como os cunhais vazados. É curioso que a porta secundaria que dá para rua Padre Toledo continua original, de saia-camisa, com socos de pedra e portais maciços.

A casa de Vicente Guerra, (número 58), passou por reforma nos cunhais e a beira seveira foi substituída por uma cimalha perfilada. 

Na rua Direita, número 40 a casa, teve sua fachada reformada na década de 1910/20, mas manteve as janelas e portas antigas, só acrescentando sobrevergas alteadas e introduzindo cimalha perfilada de gosto eclético.

 
Em 1921, foi construída sobre alicerces antigos uma pequena oficina de ourives de Galdino Rocha, com fachada de gosto eclético, duas janelas frontais e entrada lateral. Tanto nos cunhais como nos embasamentos existem almofadas e molduras. As molduras das janelas descrevem losangos. O entablamento em cimalha e pequena moldura sustentam o frontão ou empena, com almofadas, círculo com monograma do proprietário (GR), terminado em curva decorado com três pinhas de cerâmica. É curioso que o telhado continuou em telha canal enquanto a cobertura do frontão é em telha marselhesa. Hoje o sentido da cumeeira foi invertido, ficando paralela a rua.

Ainda na rua Direita, o sobrado que pertenceu a Eloisa Hellow, teve o beiral decorado com lambrequins. Esta casa ruiu na década de 1950 e foi recentemente reconstruída, sendo hoje a Pousada Padre Toledo.


Na rua Padre Toledo, existe um sobrado colonial, de número 76 em que toda fachada foi refeita ao gosto eclético, inclusive com a introdução de um portão lateral de ferro. No térreo e três vãos com verga de volta inteira, com molduras de argamassa. Os vãos se repetem na parte superior com sacadas entaladas com gradil de ferro e uma cimalha muito detalhada coroa a fachada. Internamente manteve-se o aspecto colonial. Nas fachadas laterais foram abertos os vãos de ventilação e iluminação com verga em ângulo agudo, lembrando o neogótico. Esse sobrado que ultimamente pertenceu a Arquiconfraria da Santíssima Trindade era pintado em amarelo com relevos claros e após a última reforma foi pintado de rosa forte, um tanto destoante do conjunto. 

Ainda onde é a pousada Richard, número 124, existiu uma casa mais baixa e menor com entrada lateral e frontão triangular, com molduras de gosto eclético, demolida por volta de 1966, para dar lugar a construção de um pastiche de colonial com águas furtadas e janelões desproporcionais, tudo em cimento. A casa construída por Paulo Boujanic destoa do conjunto urbano, seja pelas aguas furtadas, seja pelas proporções.

Em 1917 a Câmara Municipal de Tiradentes recebeu em doação de Policarpo Rocha, o prédio da casa do Padre Carlos Correia de Toledo Melo (1731/1803) e para lá transferiu a sede da Câmara e Agência Executiva, depois de 1930 a Prefeitura. Lá também se instalou um salão para festas, bailes, teatros e cinema. Nessa época a câmara promoveu uma reforma que na verdade reduziu-se ao sobrado (torreão) construindo um frontão eclético com beirais em lambrequins e agulha central. As janelas foram deslocadas para ficaram equidistantes e introduziu-se vidraças de abrir para fora, com vidros maiores semelhantes a Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM). Sobre as janelas do sobrado haviam sobrevergas alteadas, uma cimalhinha delimitando a empena e ao centro um círculo com as iniciais em massa CM (Câmara Municipal). Ainda foi aberto uma porta lateral e construída uma escada em tijoles queimados e cimento, com corrimão de ferro. A entrada da Câmara era independente do cineteatro, que se fazia pela porta original. Foi nesse momento que os paus-a-pique das paredes do sobrado foram substituídos por tijolos maciços e a parte inferior encamisada com os mesmos tijolos. No portão principal à direita foram colocadas compoteiras de cimento sobre os pilares. Sobre cada janela foi colocado um braço de latão com tulipa de vidro para iluminação externa, também foram abertas ventilações sobre o piso feitas com manilhas de cerâmica executadas na Cerâmica Progresso de Alberto Paolucci. O prédio foi pintado de cor próximo ao rosa, com os cunhais, aros das janelas e relevos em branco, para dá um aspecto eclético ao prédio. Em restauração feita pelo SPHAN, em 1944 o prédio voltou a sua feição original.
 


Voltando a rua da Câmara e Chafariz vamos ainda encontrar uma intervenção eclética na fachada do número 88, quando a porta principal foi levada para a lateral e as três janelas tiveram as ombreiras, vergas e peitoris substituídos por molduras de argamassa, com sobrevergas alteadas e construção de cimalha perfilada, obra feita entre 1910 e 1920. 

O número 54 da rua do Chafariz, de fronte para o Largo do Ó, uma casa colonial recebeu tratamento semelhante na fachada, agora com construção de platibanda almofadada e falsos portais de massa sobre os de pedra. Essa casa entrou em ruina e foi reconstruída a partir de croqui feito pelo arquiteto Sylvio de Vasconcellos (1916-1979), então Chefe do 3° Distrito do DPHAN em Minas Gerais e até hoje mantem a fachada fruto da reforma, com exceção das treliças introduzidas nos anos 1980.
 


Realmente construídos em estilo eclético foram o prédio da Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) em 1880/1881; o Chalé do Padre João Batista Fonseca, na atual rua Ministro Gabriel Passos (Praia) e a casa de Estevão Martins, na antiga rua do Areão, atual Inconfidentes n° X.
O chalé do Padre João Batista da Fonseca foi construído nos últimos anos do século XIX, em um grande terreno, “na praia”, antes logradouro público, as margens do Ribeiro Santo Antônio. A planta é simples, descrita em retângulo, com duas salas (visita e jantar) a direita e os quartos a esquerda, tendo aos fundos a cozinha e despensa. A fachada sobre embasamento alto apresenta quatro janelas verticalizadas com detalhes e molduras em argamassa, com vidraças de grandes caixilhos e um frontão triangular tendo no vértice e extremidades agulhas de cerâmica. A entrada se faz pela entrada lateral com degraus de cimento, hoje por pequeno alpendre. A cobertura em duas águas perpendicular à rua é feita com telhas do tipo marselhesa. Internamente a casa tinha assoalhos de pinho de Riga e barrado pintado em marmorizados. Hoje apresenta acréscimo posterior, além do referido alpendre. Havia ainda um velho portão de ferro batido assentado em pilastras de alvenaria e pequena ponte sobre um rego que passava próximo ao portão. O Padre Joao Batista da Fonseca, foi presidente da Câmara e agente executivo em Tiradentes por volta de 1915, quando se inaugurou o abastecimento de agua canalizada na cidade; posteriormente foi capelão da ordem 3° do Carmo de São João Del Rei.

Outro exemplar sobrevivente data de 1925 e foi construído para residência do português Estevão Martins que aqui aportou nos anos de 1920, se casou deixando logo depois a família e retornando a Portugal, segundo dizem, por ter contraído muitas dívidas. A casa passou para domínio de um banco e pertenceu depois a Francisco Lucinda e a seu genro Pedro Ferreira Barbosa, atualmente propriedade de Vanilce Barbosa.


Fotografia de Estevão Martins, 1920, construtor da casa acima, acervo particular
Construída com planta em retângulo perpendicular à rua, assim como a cumeeira sendo a cozinha em corpo anexo, mais baixo. A cobertura em duas águas é de telha do tipo marselhesa, com beirais em ponta de caibros e proteção em tábuas. A entrada se faz por porta lateral acessada por três degraus de cimento em semi-circulo. As janelas laterais verticalizadas perderam-se todas. O que se mantem integro é a fachada com embasamento alto chapiscado, com aberturas de ventilação gradeadas. Dois Cunhais em relevo sustentam a cimalha perfilada, que enquadra quatro janelas verticalizadas, com folhas de calha e caixilhos de guilhotina. As molduras das janelas são de argamassa, com sobrevergas alteadas sobre pequenas mísulas ou modilhões fitomorfos. Sob as janelas aparecem almofadas com as quinas quebradas em quarto de círculo. Sobre a cimalha apoia-se o frontão ou empena curva tripartida decorada com molduras e a coberta de telhas capa e canal, tendo nas extremidades duas pinhas de cerâmica. Ao centro havia uma águia, hoje desaparecida. Ainda no frontão aparecem relevos de balaustres na parte inferior e ao centro com um brasão de armas da república brasileira (estrela com círculo azul ladeadas por ramos de café e fumo. Aos lados eqüidistantes, aparecem as iniciais do construtor E.M. (Estevão Martins) e a data de 1925.
Originalmente havia um portão de ferro lateral, com as mesmas iniciais na parte posterior, assentado em pilastras com dois leõezinhos de cerâmica e a direita um falso portão em cujas colunas haviam pinhas. O interior era assoalhado de tabuas estreitasas (20 ou 25cm) e no hall de entrada, sala frontal e quartos havia uma barrado pintado à imitação de mármores coloridos com desenhos de almofadas.
Hoje a casa acaba de passar por restauração e adaptação para comercio, após longo período de degradação.
Na mesma rua, logo abaixo, no caminho da estação existiu até a década de 1980 a casa de Francisco Ferreira de Morais, o Chico do Cesáreo e de Jeny Morais Batista, onde havia armazém de secos e molhados e casa de vivenda. Esta construção tinha duas portas na frente e uma janela. A entrada da residência fazia-se pela lateral, através de um alpendre com pinturas de paisagem na parede. A janela dava para sala de visitas e as portas para a varanda. A empena da fachada tinha recortes, relevos e almofadas e terminava em curvas com três pinhas de cerâmica. A esquerda ficava o armazém ou deposito de gêneros alimentícios, com telhado paralelo a rua e janelas tradicionais. Tratava-se de uma casa antiga, possivelmente do século XIX que teve a fachada reformada ao gosto dos anos 1920.
A Estação da Estrada de Ferro Oeste de Minas (EFOM) foi construída por volta de 1880, sendo inaugurada em 28 de agosto de 1881. A edificação original era menor que a atual, pois só existia o antigo armazém e a agência que hoje fica no centro do prédio. Os dois cômodos à direita parecem que foram acrescidos ainda no século XIX e a área de cozinha e dispensa (hoje banheiros) já no século XX. O prédio segue o mesmo estilo das estações com telhado em duas aguas com telhas francesas, duas empenas com óculo e cimalhas. Os beirais todos contornados por lambrequins de madeira recortada, hoje em parte perdido. O embasamento em pedra é alto devido as enchentes do Rio das Mortes. Portas e janelas são do tipo calha, com caixilhos de grandes vidros, com molduras de massa no terço superior. Há barrado de chapisco voltado para a plataforma. Esta é acoplada a casa com piso de cimento liso, estrutura de trilhos, telhado em duas aguas, originalmente de telhas de barro francesas, hoje substituído por telhas vermelhas de amianto em losangos imitando telhado de ardósia. Um jardim típico dos anos 1920 foi acrescido ao conjunto. A arquitetura das estações influenciou sobremaneira as reformas e novas construções, com empenas voltadas para a rua, molduras de massa nas portas e janelas e lambrequins nos beirais.
 



Estação de Tiradentes foto de 1920, ainda com os lambrequins na empena do telhado principal
No Largo das Forras existiu uma curiosa construção dos anos 1920/1930 em terreno originalmente logradouro público, onde hoje é a Pousada do Largo, n° 48. A casa tinha um curioso jogo de águas de telhado e portas e janelas em arco pleno. Inicialmente propriedade de Francisco Araújo Lima, depois Domingos Longatti e ultimamente passou à Lourenço Firmino de Campos quando foi reformada e o telhado foi refeito em duas aguas. Mas de qualquer maneira a construção tinha influência do ecletismo.

Entre 1938 e 1942 foi construída uma casa de Teófilo Reis na atual Rua dos Inconfidentes n° 211 cuja fachada de influência eclética e de gosto popular foi pintada de verde e amarelo como a bandeira do Brasil. Duas janelas com molduras de massa e caixilhos de grandes vidros preenchem a frente. A porta de entrada é lateral precedida de alpendre.

Sob as janelas há uma grande almofada de massa. Dois cunhais sustentam uma cimalha estreita perfilada e frontão em dois semicírculos com relevos de leques encimados por agulhas de cerâmica. No centro do frontão há uma peanha e coifa metálica onde havia a figura de cerâmica de um índio ligado a Umbanda e sobre a entrada do alpendre nicho com as figuras de Pai João e Mãe Maria, também da Umbanda. As iniciais do proprietário e as datas estão em relevo no frontão, como divisa “Vila fé em Deus”. Esta casa de gosto popular se manteve integra externamente, com exceção das figuras de umbanda, desaparecidas.
Sobrevive ainda na rua Antônio Teixeira de Carvalho n° 113 a casa construída por Joao Gonçalves de Moura, nos anos 1930, do tipo bangalô, com empena simples, alpendre embutido no corpo da construção. O muro baixo com faixas em relevo dão charme a construção, com pequeno jardim à entrada.

Na cidade não existe e parece que não existiu construções de gasto “art décor” com exceção de duas sepulturas no cemitério da Matriz, da família de José Cândido da Silva. Houve ainda um pequeno portão de ferro n primeira casa da Rua Silvio de Vasconsellos, pertencente ao Antônio Gonzaga Teixeira (o Canarinho) hoje de Eros Grau. O portão foi retirado e está desaparecido.
 


Um curioso exemplar de arquitetura popular modernista sobrevive na rua dos Inconfidentes n° 317, de Nilber Barbosa. A fachada com colunas copiadas dos palácios de Brasília, grandes panos de vidro e telhado de laje plana, com platibanda em ângulo central que remete a linguagem modernista e incorpora revestimento em pedra da Serra de São José, muito usada nos anos 1960 e 1970, para revestimento decorativo.
Fora do núcleo urbano podemos citar a estação de trem de Cezar de Pina e as casinhas adjacentes, a primeira construída em 1923, no eclético típico das estações. Existiu ainda a bela estaçãozinha de Águas Santas, demolida em 1966, que tinha empenas de ferro ou madeira recortada e paredes de “enxaimel”.
  


 

 
No mesmo povoado de Águas Santas duas construções de apuro ligam-se ao ecletismo: a capela de Nossa Senhora da Saúde inaugurada em 1915 e o prédio do balneário construído por volta de 1908/1910, com portadas em arcos de volta inteira. A capela está totalmente descaracterizada e o balneário foi demolido para construção de novo prédio na década de 1960.
 

Ainda na região da “Caixa d’água da Esperança” pode-se ver ainda a casa de David Silveira, com frontão eclético e cimalhas perfiladas. Ainda nessa região existiu o chalé da Baronesa de Santa Maria ou fazenda da Esperança, construído por volta de 1860/70 em estilo neoclássico/eclético, com fachada apresentando frontão triangular, três ou quatro janelas rasgadas com sacada entalada, entradas laterais com escadas de pedra e gradil de ferro. O embasamento era alto e casa possuía um pátio interno, do tipo jardim de inverno. Infelizmente a casa foi demolida no início da década 1980 e o material vendido, sobrevivendo apenas os alicerces. Enfim há ainda alguns exemplos de inicio do século XX, tanto nas Águas Santas quanto na zona rural do município.



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